quinta-feira, 14 de março de 2013

A revolution from my bed

As the art and science of manipulation come to be better understood, the dictators of the future will doubtless learn to combine these techniques with the non-stop distractions which, in the West, are now threatening to drown in a sea of irrelevance the rational propaganda essential to the maintenance of individual liberty and the survival of democratic institutions.

Aldous Huxley em “Brave New World Revisited” (1958)

A internet reitera o mundo. É como pornografia: todos procuram apenas aquilo que satisfaz. É um vício pelo entretenimento na forma de humor e às vezes, como se vê nas redes sociais, um vício na forma de indignação. São os dois minutos do ódio para extravasar sua opinião sobre uma injustiça do mundo; uma vez cumprida a cota de “que-absurdo-isso” e “que-absurdo-aquilo”, sossega-se o facho – como faço aqui. Em geral, só se procura o prazer: se o sujeito tem paciência de ler, abre matérias que confirmam o que já pensa para ter mais embasamento pra sentar a lenha naquilo que odeia ou, na melhor das hipóteses, clica na Veja ou a Folha de São Paulo para malhar a nova direita brasileira (pfff!). Nada que o desafie muito ou abra debate para uma crítica que se preze, já que dá cãimbra no cérebro.

Esse é o cenário perfeito para circular um vídeo na internet do político e comunicador George Galloway vociferando contra as opiniões de um estudante de Oxford. O rapaz defendia uma visão contrária às melhorias e democracia do governo de Hugo Chávez na Venezuela. O nome certo do vídeo seria “Como destruir a alteridade em pedacinhos”.

Muitos postaram o vídeo na vã sensação de se sentirem vingados exatamente para concordarem e taxarem de “alienação” qualquer opinião contrária.

Apesar de ser uma tática baixa, é comum desconstruir a imagem do adversário. Vide os cartunistas Laerte sobre a nova ARENA e Latuff sobre pastores evangélicos. Curioso que, neste último, se usa como arma de vilipêndios exatamente aquilo que se defende, o que mostra total desprezo pelas próprias causas, na vaidade de atacar. A mesma prática é repetida até o talo com jornalistas como Eliane Brum, Leonardo Sakamoto e Marília Gabriela ou na verborragia de algumas figuras públicas, como o venezuelano Nicolás Maduro chamando o candidato da oposição Henrique Capriles de “maricón”.

Temos aí o argumento ridículo de que, para se sobrepujar, é necessário desqualificar o antagonista.

Desde as entrelinhas de portais de notícias aos perfis do Facebook, impressiona como as pessoas levam a sério toda boa ação estatal. Como é irresponsável acreditar que tudo só parte da boa vontade de um líder e que só faltava alguém determinado a peitar as elites. Todas essas “melhorias” na educação são tão questionáveis como as suas consequências negativas.

(Estados inconsequentes são como adolescentes/crianças: apesar de terem grande potencial, são cheios de si, são naturalmente dependentes e não produzem. Se dependesse unicamente da vontade de Estados assistencialistas, todo o dinheiro público seria usado para comprar salgadinho e que se dane o dinheiro da perua ou a mensalidade da escola. Em escala maior, fazem exatamente isso e, de novo, com ou sem boas intenções.

De nada vale ter “consciência social”, fazer e acontecer e zás e zás, e defenestrar a economia do país no limbo.)

A esquerda ataca como se, para os liberais, a propriedade estivesse acima da vida e do bem-estar. Mas é óbvio que a imagem de uma pessoa que antes era miserável – e hoje trabalha e tem o que comer – é muito mais emocionante do que um portfolio de empresa ou o anúncio da entrada de capital estrangeiro. Mas nenhum esquerdista pergunta de onde saiu o dinheiro que caiu na mesa do pobre e seus impactos dessa arrecadação, tampouco as consequências sociais positivas com investimento econômico privado sério. O vermelho é uma cor que sabe chamar atenção.

É um cenário dual. Ou é preto ou é branco, não tem meio termo. A discordância é a nova alienação.

Toda besta útil merece um guia genial dos povos.

Recomendo o ceticismo para que se desconfie até daquilo que se ataca – recomendação arriscada essa, pois o vício pela imparcialidade, assim como a unanimidade e a estagnação, sempre traz problemas.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Nota de falecimento a Chávez

E o câncer reacionário leva mais um líder da América Latina.

Com a morte do Chávez, a Venezuela vai mudar como a Apple mudou sem o Steve Jobs. Sem uma figura carismática, seria o fim de uma liderança ancorada no personalismo, talvez com outras estratégias para com o público. Por outro lado, em essência, tudo se mantém.

Sei que nem só de pão vive o homem; eu bem que gostaria de gastar todo meu salário em tecnologia, livros, shows, peças de teatro, cursos, instrumentos musicais; não faço porque tenho obrigações. Um Estado cava um buraco quando gasta tudo em cultura e educação. Ainda que na melhor das intenções, um líder que faz isso não pode ser idolatrado justamente.

Sonhava em ouvir a presidente Dilma Rousseff fazendo o discurso que poderia ter sido e que não foi:

"Lamento a morte de um homem e tudo o que significou para seus familiares e admiradores. Por outro lado, a morte do estadista minguará a ditadura do proletariado que já anunciava o fim por si. Chávez deixou filhos, mas não sucessores; notavelmente, o regime adequado a essa escolha e ao seu gênio era uma ditadura tal qual construiu, sem quem tocasse o seu plano adiante, em que apenas ele podia ser líder. Ninguém deve comemorar este momento triste de sua morte, pois é duplamente lamentável. No passado, pelo que ele fez ao povo, e no futuro, pelo enorme trabalho que é necessário para desfazer seus erros."

Aí caí da cama.

sexta-feira, 8 de março de 2013

O verbete democracia

O significado de “democracia” sofreu transformações desde que nasceu na Antiguidade. O direito de exercício democrático na política era restrito a homens que atingiram a maioridade. De lá pra cá o direito de decisão foi dado realmente ao povo, após mobilizações e transformações do tempo. E os ventos anunciam novas mudanças que reviram seu conceito original que conhecemos sobre a decisão da maioria.

Uma torrente globalista paira por aí; é disforme, mas reconhecível por propor soluções para os problemas que ela mesma criou, em prol de se consolidar como essencial aos povos do mundo. Soa megalomania e teoria da conspiração, mas não quero dizer outra coisa que não seja exatamente isso. É conspiração, um pacote de diretrizes que vem de cima, flertando com o pior do capitalismo e do comunismo conforme melhor lhe convém.

Uma das diretrizes desse “pacote” é a reinvenção do termo minoria, que o retira de sua aceção comum e o torna mais sagrado que a maioria democrática. Foi criada a necessidade de tutorar uma minoria, diferentemente das lutas legítimas pelos diretos das mulheres e trabalhadores que obviamente seguiam para um caminho contrário sem que dependessem do Estado ou das estruturas familiares no começo do século XX. A democracia também não é unanimidade, tampouco busca agradar a todos; é o exercício político no qual a representatividade é eleita a partir da decisão de uma maioria. A manobra engendrada para inverter a hierarquia da importância da necessidade de um grupo menor sobrepujando a um menor vai além do que se vê.

Ressalto tudo isso porque, na tarde de ontem, o deputado Pr. Marco Feliciano (PSC-SP) foi escolhido para presidir a Comissão de Direitos Humanos e Minorias. Cada século tem o Von Martius que merece.

Primeiramente, não entendi o foco desta comissão. O nome “minorias” está posto ao lado de “humanos” ou “direitos humanos”? De qualquer forma, no primeiro olhar percebi que o nome desta comissão era uma farsa. Daí a reinvenção da roda, colocando o verbete “democracia” em governo de minorias. Está na cara que Câmara dos Deputados segue tendências repetidas pela mídia e pelo povo – a história do ovo e da galinha: quem veio primeiro? E quem discorda? Respeitar essas tendências é louvável; o adequado é atacar a causa da disseminação de um pensamento que até uns anos atrás era inverso ao seu. São as tais diretrizes.

Quanto ao carro-chefe das críticas ao deputado, suas declarações de racismo e homofobia, é triste saber que exista grupos de pessoas que defendam que nascer negro é um azar. Refletindo sobre seu lugar na democracia, se existe um grupo que pensa assim, é natural que entre em conflito ideológico com os demais grupos e, ainda que receba todo tipo de crítica, também é natural que se tenha participação política (com candidatos e cargos), desde que suas afirmações não sejam contrárias às leis de assédio moral, o que não é o caso do deputado Marco Feliciano. Essa democracia permite que do nada surja um Jean Wyllys e um Jair Bolsonaro entre engravatados de renome e possam representar seus respectivos grupos de pressão.

Porém, algum desses representantes podem passar a defender seus valores não dentro dos limites de seus cargos políticos, mas sim enrolados nas bandeiras de suas causas e sobre seus púlpitos e altares. Independentemente da denominação religiosa, valores cristãos na Câmara ou no Senado são totalmente lícitos, mas em hipótese alguma devem ser usados e aplicados a todos cidadãos do país. Esse bloqueio garante que cristãos fundamentalistas não imponham a pena de morte para não-cumprimento de leis bíblicas externas ao Código Penal, como também impede que gayzistas aprovem a recriação do termo “família”, conforme já aconteceu com a "democracia". Ninguém nasceu na República Teocrática Cristã do Brasil.

Nessa batalha, ganha quem consegue reunir mais ovelhinhas. E nas trincheiras das redes sociais e dos comentários de páginas de notícias, o que se faz é só gerar insatisfação e raiva mútua.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Como espantar moscas

“They who can give up essential liberty to obtain a little temporary safety, deserve neither liberty nor safety.”

Benjamin Franklin

No mês passado soube de algo inusitado que a princípio achei interessante – e não demorou mais que dois segundos para que eu percebesse do que se tratava. A Lei Federal de Psiquiatria (Nº 10.216, de 2001) possibilita a internação compulsória para dependentes químicos. E o Governo do Estado de São Paulo, em seu site, publicou esclarecimentos de como funcionará a aplicação desta lei em São Paulo.

Facilmente ludibriada, a população aceita esta lei porque, além de crer na melhora da vida dos dependentes, em tese a lei aproximaria o fim do tráfico de entorpecentes e, acima de tudo, traria segurança a todos. É curioso quando assuntos de saúde, cultura e segurança pública se misturam na administração pública e, por conseguinte, na cabeça do pobre diabo.

Em poucas palavras, a lei quer mostrar serviço. O Governo propõe limpar as ruas da maneira mais cruel, reintegrando posse do espaço público como se fosse propriedade privada. Provavelmente resolverá casos de famílias arruinadas pela presença do viciado, que em muito é só retirar o problema. O foco está, sem dúvida, em espantar as moscas, mandar quem incomoda a rua para um lugar longe das vistas da população. Exatamente, como já era realizado com a Operação Centro Legal (nome que é pura engenharia linguística) que buscava reabilitar os viciados da Cracolândia e removê-los da região. Tudo isso sem falar no direito de ir e vir mandado pras cucuias. Se o problema fosse só a solidão, os paulistas não sofrerão sozinhos: trata-se de uma lei federal.

A liberdade de escolha é dispensada em troca da sensação de uma segurança que não existe. Dentre as más novas, uma coisa é certa: ninguém precisa de liberdade plena e verdadeira quando nos são oferecidas possibilidades limitadas que nos fazem “livres” para escolher. É a falsa liberdade que temos para escolher qualquer cor de tonalidade fria; com o tempo, aprendemos que tudo que é tom frio entre branco e preto é chamado de “cor” – e qualquer coisa fora disso é ignorada, seja amarelo, vermelho ou azul. Só não sabemos ao certo quem delimita o arco-íris.

Muitos já estão de pé dando uma salva de palmas ao Governo Federal pela iniciativa. Contudo, ninguém lembra das instituições que estão mais comprometidas com o povo que o próprio Poder Público, este, por sua vez, que só faz publicidade de si. Eu mesmo não conheço nem atuo em algum grupo assim. Uma situação perfeita para ilustrar esta Lei Federal de Psiquiatria foi o anunciado pela Secretaria Municipal de Segurança Urbana de São Paulo no dia 28 de junho do ano passado, que apresentava a proposta de proibir o sopão na cidade para “coibir a distribuição insalubre dos alimentos”. Em linhas gerais, a proposta buscava criar a médio prazo lugares como o Bom Prato (que é estadual) para que só assim as instituições caridosas servissem seus sopões. A Prefeitura de São Paulo, na época sob a gestão de Gilberto Kassab, se retratou afirmando que os sopões não seriam proibidos e que a iniciativa não partiu da prefeitura.

Apesar de estarem aqui misturadas as esferas municipais, estaduais e federais, os interesses já mostraram não ter endereço nem fronteiras quando se trata de gestão pública. No caso do sopão, servir uma mesa com um brasão da prefeitura escrito “Non ducor duco” atrairia todo o mérito da caridade para a gestão e os holofotes eleitoreiros. Não é diferente com a internação compulsória, com uma maca escrito “Brasil: país rico é país sem pobreza”. Proibir a sopa na rua, que era um ato de caridade, gerou indignação; já sobre a internação compulsória não se ouviu um pio, mesmo sendo um crime inconstitucional contra a liberdade individual.

É absurda a crença de que vale a pena internar alguém contra sua própria vontade, pois isto de certa forma pode trazer um bem à sociedade. Simplesmente se julga que, por ser viciado, o sujeito não tem capacidade mental de fazer as escolhas certas para si, como se fosse um doente terminal, aguardando ansiosamente para ser tutorado. Graças a isso, poderiam ser abertos precedentes de todo tipo. É possível imaginar no que isso vai dar: eutanásia e aborto. Um caso perfeito de passa-boi-passa-boiada.

Tudo errado. O fato de um sujeito acabar com a própria vida não significa que acabará com a alheia, tampouco que irá colocá-las em risco. Garantir a liberdade do cidadão é, inclusive, permitir que ele acabe consigo mesmo, ainda que o Estado reprove. Se não houvesse nenhum interesse de promover a imagem do Poder Público, esta proposta seria a saída mais higienista de acabar com o livre-arbítrio de um viciado.

sábado, 2 de março de 2013

Duas folhas da mesma página

Li um texto ótimo no blog de uma amiga e pensei sobre as opiniões contrárias ao Big Brother Brasil.

Dá pra arriscar alguns padrões de quem assiste o programa. Eu poderia dizer que o BBB retoma vontades latentes de algumas pessoas, como 1) dividir um determinado fato com os outros, 2) identificar-se em grupo ao criar um assunto comum, ou 3) a curiosidade pela vivência alheia. Esta última vontade (3) é facilmente simulável com um outro tipo de programa, filme ou livro; enfim, ficção, que se traduz em como alguém se sairia em determinada situação e talvez haja um espelhamento nisso. Na 2), o futebol, gostos e conhecimento comum também cumprem esse papel. E na 1), podia ser um acidente de trânsito, uma notícia.

Em todos esses exemplos, o que acho curioso é que aqueles que avaliam os espectadores do BBB também são avaliados. A rejeição do programa também é número para a Rede Globo, seja essa estatística levada em conta ou não. As pessoas que rejeitam os espectadores do BBB (eu mesmo, por exemplo), bem como rejeitam o próprio programa, costumam atacar essas vontades ao vê-las pelo seu pior ângulo: 1) fofoca, 2) falta de individualidade, 3) bisbilhotice.

Sob outro prisma, é fácil entender esses ataques como rótulos, mas nada mais são do que o outro lado do mesmo evento. É o que diferencia "teimosia" de "força de vontade". Há um costume geral de instaurar dicotomias (frio/quente, direita/esquerda, disposição/preguiça, vida/morte) sem sequer refletir se cada uma delas são realmente opostas, se não existem outras categorias que preenchem o vão entre uma extremidade e outra (morno, apolítico, indisposição, doença).

Qual o ponto disso tudo? Ao dizer algo, você suscita valores que estão de acordo com o que pensa no momento em que diz. Se as palavras, opiniões e posturas forem percebidas enquanto estão em prática (conversa, texto, reações a um filme, etc), podem ser controladas e alteradas. Cansa ignorar os próprios gostos, mas dá. Esse autocontrole pode fazer ouvir Tchakabum no seu quarto e Tchaikovsky num churrasco, pois estas músicas não estão necessariamente endereçadas a determinadas situações. Por mais instantânea que seja sua reação quando exposto a algo fora do seu padrão, do seu gosto, de sua bandeira, pense de novo e tente entender o repertório de ideias daquele que executa aquilo que você a princípio rejeitou.

É o que faz pessoas de posições opostas se respeitarem sem necessariamente aceitarem a prática do outro, para ouvir uma proposta contrária e discordar sem sair faísca.

Relembrando das palavras para atacar o BBB e dos outros significados dessas mesmas palavras, todo esse autocontrole pode ser entendido como "escapismo" (ser bunda-mole) e "poltronaria" (ser covarde, fujão). Prefiro entendê-lo como "tolerância" – que naturalmente me falha.

Por isso sou da turma do deixa-disso.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Comigo não morreu

"Quando a gente não pode fazer nada, a gente avacalha. Avacalha e se esculhamba."
João Acácio Pereira da Costa, o Bandido da Luz Vermelha

Fato

Durante a partida desta semana entre San José e Corinthians pela Copa Bridgestone Libertadores, um garoto de 14 anos no estádio em Oruro, Bolívia, foi atingido por um sinalizador e morreu em seguida.

Essa morte levanta muitas questões sobre segurança e me recorda um fato recente que colocou o Brasil de luto.

Na segunda quinzena de janeiro, todos tivemos a oportunidade de assistir o comportamento da mídia ante tragédias e a necessidade da notícia.

Em tempo: não diminuo o peso da tragédia e nem a dor das famílias. Uso o espaço para colocar em jogo o desespero em achar um culpado, os interesses midiáticos e o poder da aparência, inclusive em respeito à profissão do jornalista. Questiono a posição da mídia como reguladora dos ânimos do público, assim como também questiono se o Brasil merece estar de luto.

Na noite do dia 27/01, dia do incêndio na boate Kiss em Santa Maria (RS), a equipe do Jornal Nacional fez uma ampla cobertura do ocorrido. O mesmo VT foi exibido no dia seguinte, idêntico, diferente do vídeo da véspera apenas pelo enxerto de uma sonora.

Formato

A banca de jornal estava no meu caminho quando vi essas três revistas. Longe de me posicionar quanto à qualidade de cada uma delas, as revistas quebraram o decoro jornalístico e deram um tom apelativo sui generis, tal qual a situação que motivou aquelas matérias.

Revista Veja (Edição Especial)

NUNCA MAIS

Que em memória dos 235 jovens mortos de Santa Maria façamos um Brasil novo, onde ninguém mais seja vítima do descaso, da negligência, da corrupção de valores e da impunidade

Imagem: fundo com destaque centralizado de mulher de chapéu abaixada sobre um caixão

Revista Época (Edição Especial)

TÃO JOVENS

TÃO RÁPIDO

TÃO ABSURDO

Imagem: fundo de fotos 3x4 em P&B das vítimas

Revista Isto É (Reportagem Especial)

TOLERÂNCIA ZERO

O Brasil não pode mais aceitar o estado de insegurança que provoca as grandes tragédias nem o desprezo às leis e à vida.

Imagem: fundo preto com uma foto pequena centralizada de um dos velórios de vítimas.

Imediatamente, como abutres, autoridades políticas se uniram ao evento da tragédia. De qualquer forma, um líder político precisa se pronunciar diante de sinistros dessa magnitude. Contudo, a presidente Dilma Rousseff, por mais sincero que tenha sido seu gesto, chorou na frente das câmeras. Provavelmente, àquela altura as lágrimas poderiam render frutos políticos, mostrando a sensibilidade da futura candidata, no ponto de vista governista; por outro lado, na visão oposicionista, as mesmas lágrimas poderiam mostrar o fracasso particular, devido à mão do Estado (na forma de fiscalização ou controle) não ter evitado o ocorrido.

Mesmo diante dessas condições e de muitas outras posturas daqueles que apareceram naquele momento difícil, as capas daquelas três revistas não escolheram um lado. Pelo menos, não ousaram. O impacto da dor que queriam transmitir, num lampejo de bom senso, não escolhiam um culpado imediato, mas sim um tiro no escuro, genérico e impassível de resposta.

Ao invés de detalhar a sintaxe dos títulos dessas matérias e contrapô-las, aproveito para destacar suas semelhanças.

As capas conseguiram reproduzir fielmente o "paradigma social" da dor, no qual se reconhece no outro alguém semelhante a você; em outras palavras, as revistas se valeram da alteridade. É o mesmo que move algumas pessoas para verem o resultado de um acidente de trânsito. Note que isso não pressupõe compaixão pelo próximo; muitas vezes tal atitude se traduz apenas na curiosidade egoísta que, maliciosamente ou não, parte da ideia de contemplar naquele corpo estirado uma possibilidade de ter sido com você, e o que era alheio se torna algo que lhe é particular.

A maior semelhança entre as capas das revistas é o foco que, com o devido apelo, instiga o leitor a essa curiosidade, também motivada pela pressão social de estar inteirado sobre o assunto. Esse é o principal gatilho de quem vê ou lê jornais.

Fardo

No posto de "porta-voz" da coletividade, a mídia tem o dever institucionalizado de apontar a direção dos ânimos da massa. A indignação, unânime ou não, é distribuída igualmente, para que todos possam compartilhar um mesmo tema. Este papel de uniformização é a função do formador de opinião.

Em ocasiões como esta, é recorrente a mídia eleger imparcialmente os suspeitos a partir das investigações policiais. Ao fazer isso, a opinião pública é orquestrada e normalmente pede a cabeça do culpado na ágora para saciar um desejo efêmero de justiça.

Mas quem é o culpado? Admita: foi fácil nos casos Nardoni, Lindenberg, Von Richthofen, goleiro Bruno, Mizael Bispo etc. Além de render espetáculos para muitas semanas, cada réu era uma figura pontual, um indivíduo específico, com um só rosto, registro de identidade, CPF. E quando o culpado é tão variado como os afetados pela tragédia, amorfo como a negligência, o jeitinho, o descaso? E quando a culpa é de um grupo indistinto que passa rente ao flagrante, consentindo, conivente ao ignorar a causa de determinados males que lhe afligem? E quando o culpado é tão coletivo quanto a opinião pública pregada nesse evangelho de más notícias?

Aí vemos o papelzinho das revistas. Os casos de Santa Maria e Oruro são derrotas já anunciadas. Qualquer julgamento no tribunal só servirá para apaziguar a sede de justiça, pois os mortos não vão desmorrer. Nada será desfeito. Futuras tragédias não serão evitadas. A punição será solução paliativa; se severa, apaziguará mais, mas não anulará a dor em nada.

O empate é o melhor que o martelo e o apito do juiz podem conseguir.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Entrevista em púlpito

Um vídeo roubou a cena e fez do même "Santa Maria" a tragédia mais intensa e mais fugaz das redes sociais. Um programa de entrevistas do SBT fisgou a atenção de muitos e ocupou muito espaço na internet. O tal vídeo conquistou outros vídeos de resposta e piadas de todo tipo.

Marília Gabriela é uma entrevistadora experiente. Trabalha ao mesmo tempo em três canais de televisão e sempre vendeu uma imagem de entrevistadora polêmica - alguém do tipo que encurrala o entrevistado para que ele se mostre em suas respostas, como um interrogatório. Como todo programa de entrevista, acredito que antes de cada filmagem haja um piloto para formular ou praticar perguntas previamente traçadas, o que de maneira alguma invalida a espontaneidade da situação da entrevista.

Esse formato rendeu algumas grandes conversas e supostamente não seria diferente na semana passada, quando foi ao ar a entrevista com o pastor pentecostal Silas Malafaia. Pois bem, não foi uma grande conversa. Notavelmente algumas pessoas se dão melhor com púlpitos do que com bancadas. Vi discussões de bar mais organizadas do que aquele programa.

Tenho algumas considerações sobre a postura de Marília Gabriela, com a sua posição profissional daquele dia, bem como sobre a posição religiosa do pastor. Vamos a elas.

A entrevistadora tocou em frente um debate. Aparentemente desarmada no início, o programa ganhou corpo e polpa antes do primeiro intervalo com a primeira questão polêmica que foi levantada, sobre a dinheirama do pastor. A parede discursiva que impede atitudes arbitrárias foi irrompida. O formato de pregação, já tão sólido na fala comum do pastor, fez com que qualquer declaração fosse um grito agudo, como é de seu costume. O tom de voz e as posições polêmicas do pastor fizeram o jogo perder o rumo, mesmo com intervalos comerciais. Mas o que de fato tirou tudo dos trilhos foi a falta, por parte da entrevistadora, de qualquer conhecimento no campo do entrevistado, argumentos bíblicos, beirando apenas naquilo que é comum a um católico não-praticante. Não é profissional a entrevistadora assumir o papel de destinador ou dar lição de moral. Duas pessoas se sentaram para que apenas uma fosse exposta; as duas se expuseram e da pior forma possível, pois o discurso deitou fora seus traços expositivos para assumir os argumentativos.

Quanto ao pastor, um pequeno flashback. Caí na real do papel da atividade religiosa e dinheiro quando fui atualizar meu currículo há uns quatro anos. Dentre as coisas que são de César, estão as peneiras nas salas de Recursos Humanos. É possível dedicar grande parte do dia, semana ou mês em uma atividade religiosa que desenvolva sua criatividade, dê canseira, prazer, resultados até mais sólidos do que carregando documentos, enrolando brigadeiros, teclando no escritório ou fazendo faxina fora. Essa atividade religiosa não tem a mesma relação de trabalho que um emprego comum, como um consultório ou escritório, já que, no caso cristão, a postura assumida é de doação, e a atividade, secularmente, é uma prestação de serviço e não pode ser incluída em currículo como experiência de grupo, recomendações, oratória ou jogo de cintura. Apesar disso, minha posição é que sim, alguma renda é necessária quando você dedica metade ou mais do seu tempo em seu local de fé ou "perímetro" de atuação - e quando digo "tempo", falo de 24/7, não das horinhas que sobraram que fazem você dar um pulo na igreja. Contudo, em consonância com a sua ideologia de prosperidade, o patrimônio que o pastor levantou superou em muito qualquer limite mensurável de abnegação. Isso já o colocaria em cheque.

Quanto a todo o resto, que é justamente o que mais promoveu o status quo laicista das redes sociais, recomendo que "cristãos não-praticantes" de plantão leiam a Bíblia. Informem-se e, de preferência, sem revisionismos. Toda a postura de Silas Malafaia em relação a união homoafetiva não é novidade; o que há de novo é a interpretação feita com o livro, que cada vez mais é visto como um compêndio de leis atrasadas que, como disse Marília Gabriela, são leis "de dois mil anos que nunca foram revistas". Não suporto essa pretensão humana em querer revisar Deus. É uma vontade infinda de atualizar, de fazer do óbvio obsoleto e criar algo novo que abrace a todos.

A engenharia linguística comeu solta: evito "homossexualidade" e prefiro "homossexualismo" não por motivos médicos, dos quais duvido muito, mas sim pelo gay ser uma bandeira, como o feminismo. O bom-mocismo impede que sejam colocadas as palavras "bandido" e "gay" na mesma sentença, pois implicitamente (só se for com Freud, pois o Chomsky foi embora e mandou lembranças) você dá a entender que há uma comparação entre os dois, ou que estão colocados em pé de igualdade. A quem não entendeu isso, sugiro ler uma gramática, sessão "Sintaxe"; tenha carinho especial pelo capítulo das orações coordenadas.

Tomada essa proporção nas redes sociais, sentei e play. Até o último pelo do corpo eu me arrependi.